Jaime Fernando Ferreira é graduado, mestre e doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor do Departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atua em pesquisas com moluscos desde a implantação das primeiras áreas de cultivo de Santa Catarina, supervisionando, desde 1997, o Laboratório de Moluscos e Marinhos da UFSC. Há anos está envolvido com pesquisa, ensino e atividades de extensão que levam conhecimento sobre maricultura para pescadores artesanais. O professor atua como pesquisador e orientador de estudos que procuram aprimorar o culto das ostras e dos mexilhões. É, também, referência em investigações de alternativas para aquicultura no estado, com trabalhos sobre a viabilidade do cultivo de ostras nativas, ostras perlíferas (que geram pérolas), vieiras e polvos.
AQUABIO - Como a pesquisa contribuiu para Santa Catarina tornar-se o maior produtor brasileiro de Moluscos?
JAIME - O que acontece aqui no laboratório é que todas as pesquisas que a gente está desenvolvendo, e sempre foi assim, estão direcionadas para o setor produtivo. Então, é basicamente fazer pesquisas em duas linhas: uma que atenda a uma pergunta, uma demanda do próprio setor produtivo, e pesquisas em outra linha que antevêem possíveis desdobramentos desses trabalhos de produção. Coisas que você pensa ou consegue visualizar que podem ser um problema, a gente já vai fazendo para que quando apareça o problema ele possa ser resolvido rapidamente. É um direcionamento de praticamente todas as pesquisas para uma demanda imediata do setor produtivo ou para uma perspectiva de demanda daquela informação mais pra frente.
AQUABIO - Quais foram os principais entraves na evolução da atividade junto às comunidades costeiras?
JAIME - Na relação do laboratório com as comunidades não tivemos nenhum problema, nem no começo, porque a gente não forçou as comunidades a fazer nada, foi um ingresso totalmente voluntário. Oferecia-se a possibilidade de produzir mexilhões ou ostras em função de algumas características dos locais e falava-se para comunidade: "Olha, a gente passa informação de graça, tem toda a parte técnica". Mesmo assim é a comunidade que decide se quer fazer ou se não quer. Na verdade não era nem a comunidade, eram os indivíduos. Porque às vezes uma comunidade não era favorável, mas tinha um indivíduo que queria e fazia. Depois isso foi evoluindo naturalmente. Não teve nenhum tipo de imposição.
AQUABIO - Hoje eles têm uma maior participação aqui?
JAIME - Não, a participação no laboratório particularmente não. A gente tem sempre um contato direto com eles. Como a gente fornece as sementes e as larvas, eles têm que vir buscar aqui e nessa busca a gente sempre está fazendo uma troca. Eles informam como é que está o desenvolvimento, se tem algum problema. Caso tenha algum problema, a gente avalia esse problema e tenta responder ou solucionar. Temos também um sistema de controle, de rastreabilidade de sementes. Nós sabemos o que cada produtor pegou, quando pegou, ou outras pessoas que pegaram a mesma semente. Trocamos informação o tempo todo e quando aparece um resultado de pesquisa de alguma novidade interessante, que eles ainda não usam, a gente propõe começar a fazer testes. Se eles gostarem da nova técnica, continuam. Se eles não gostarem da técnica, voltam ao que eles faziam antes.
AQUABIO - Qual a dimensão das mudanças e melhoramento na qualidade de vida destas populações locais que dependiam exclusivamente da atividade pesqueira?
JAIME - Essa mudança foi percebida principalmente no meio da atividade. Foi implantado, em 1988, e desde 1995 já se conseguia perceber mudanças nas comunidades, tanto para a produção de ostra quanto de mexilhões. Uma característica importante é que em algumas avaliações que foram feitas, naquela época, nas comunidades, praticamente 100% dos filhos dos produtores estavam na escola. Esse é um dado que para nós foi bem interessante. Outra constatação interessante foi que eles mudaram em algumas comunidades o padrão de vida, no sentido de passar a trabalhar mais na maricultura do que na pesca. E trabalhar na pesca, na verdade, acabou sendo em alguns locais o complemento da maricultura. No começo era o contrário e a situação se inverteu porque a maricultura, no final, dá uma previsão de produção muito melhor do que a pesca muito artesanal, essa pesca de beira de praia que pode funcionar bem em um dia e não render nada no dia seguinte. Em algumas comunidades, o que a gente percebeu foi uma mudança nas construções civis. Eles começaram a trocar a casa de madeira pelas de alvenaria. Têm comunidades onde, hoje, a maricultura representa a segunda ou a terceira atividade principal do município, vindo depois do turismo. Ela acabou sendo, também, uma atividade economicamente importante para algumas comunidades. Infelizmente, houve uma mudança, nos últimos anos. A maricultura que era eminentemente uma atividade de pescadores artesanais até 2000, vem sendo praticada por muitos profissionais liberais. Não que os pescadores têm saído, mas profissionais como agrônomos, engenheiros e biólogos estão entrando na atividade.
AQUABIO - Qual sua visão para o futuro do cultivo de moluscos em Santa Catarina e os demais estados brasileiros?
JAIME - Prevejo, basicamente, uma estabilidade da produção nos próximos anos; não vejo uma perspectiva de aumento significativo. O Brasil, hoje, está com uma faixa de, no total de moluscos cultivados, 15 a 18 mil toneladas ano. Não acho que passe disso nos próximos anos. Acredito que com a legalização das áreas, processo que está em andamento, e com a possibilidade de entrada a atividade se torna comercialmente mais interessante. A partir disso eu vejo, nos próximos 5 anos, talvez, a entrada no mercado de produção, comercialização e processamento. Empresas maiores, que hoje são empresas de pesca, até de produtos alimentícios, poderão começar a se interessar pelas atividades, quando ela for totalmente regularizada. Isso pode dar um impulso grande, porque essas empresas trabalham com bastante maquinário e, para isso, precisa-se aumentar bastante a produção, caso contrário a máquina fica ineficiente. As empresas normalmente investem bastante em marketing, o que gera demanda de consumo. Se você tem demanda de consumo, aumenta a produção. Uma coisa leva a outra e isso pode ter uma perspectiva de aumento grande, mas acho que vai demorar. Eu acho que pra ter um aumento significativo de produção, talvez uns dez anos.
AQUABIO - Como estão sendo administradas as ameaças de contaminação dos cultivos por algas tóxicas?
JAIME - Na verdade, alga tóxica é algo que pode aparecer independente se o cultivo está ali ou não. No Brasil, felizmente, os eventos de água tóxica são poucos. São bem pontuais e, também, quando acontecem, nem todos os moluscos ficam contaminados. Essa contaminação, de maneira geral, é por toxinas de menor efeito, são toxinas diarréicas, mas não são as piores, aquelas que afetam o cérebro ou a musculatura. Existe um programa em Santa Catarina de monitoramento desse material. Esse programa foi bem articulado, por bastante tempo, entre a Epagri e a Univali, que é quem fazia as análises. Hoje, eu não sei exatamente se o programa está continuando, ele teve uma parada por problema de descontinuidade de recursos, o que acabou prejudicando o monitoramento. E, talvez, a melhor notícia seja que o produtor respondeu bem ao programa. Quer dizer que ao detectar essas algas a produção é pausada e a comercialização não é mais feita. E o produtor aceitou isso, o que é extremamente interessante. Você tem uma garantia de que se tem um evento desses, de alga tóxica em alguma das comunidades, em algum ponto de análise, o produtor está de acordo de que pare a comercialização. Ele percebeu a importância disso e que é muito mais vantajoso para ele naquele momento, segurar os animais no mar, esperar ser liberada a comercialização e, depois, vender um produto de boa qualidade. Coisas que nem sempre acontecem a nível mundial.
AQUABIO- Além das espécies mais cultivadas de ostra (Crassostrea gigas) e mexilhão (Perna perna), quais outras apresentam potencial para cultivo na região?
JAIME - Mexilhão tem uma boa resposta, funciona muito bem. A ostra japonesa gigas funciona muito bem, já a ostra nativa não se mostrou muito eficiente para a nossa região até o momento. Mas continuamos trabalhando com ela e produzindo as sementes, porque o Paraná só produz ostra nativa. E também para o Nordeste e Norte do Brasil. A vieira é uma espécie que tem biologicamente um alto potencial de cultivo, mas, na prática de produção, o potencial dela é muito baixo. Para aumentar vai demandar muita entrada de empresa em locais especiais, porque ela não tolera variação de salinidade, nem muita chuva. Não tolera água com muito material em suspensão, tornando bastante restrito os locais que pode ser cultivada em Santa Catarina. Para mar aberto, as estruturas de cultivo são muito caras. É uma relação de consumo baixo e custo de produção é alto. A demanda ainda é baixa no comércio e eu não vejo uma perspectiva de aumento em curto prazo para vieira. Polvo é outra espécie que a gente tem trabalhado e que apresenta um potencial muito bom pra aqui. Não dá para produzir todo o ciclo de vida dele num laboratório, mas a parte de engorda já está bem estabelecida. Hoje, esse produtor de mexilhão e ostra captura polvos pequenos e não joga mais fora. Ele consegue cultivar, consegue engordar eles dando de comida o mexilhão. A parte de reprodução ainda é muito complicada, mas o potencial de engorda já é bem interessante. Tem outras espécies que a gente tem tentado. Berbigão, por exemplo, que tem um potencial muito bom. Toda parte de laboratório de produção de larvas, sementes, está resolvida. Temos problemas de produzir a semente e saber o que fazer com ela. Existem alguns detalhes de autorizações do IBAMA de outros órgãos que dificultam essa colocação no momento. Mas, também, para o nordeste é extremamente importante o berbigão, estamos passando toda a tecnologia de desenvolvimento de larva e semente para o nordeste. Lá, essa espécie está sob o risco de extinção, segundo o IBAMA. A última, que seria a ostra perlífera brasileira, está com a tecnologia bem desenvolvida em laboratório, engorda e no mar. Estamos na fase de inserir os núcleos de pérola e ver a eficiência do processo. Potencial para isso é baixo. A resposta vai ser boa, mas não existe mercado, não existe produtor interessado ainda, não existe um real potencial de uso dessa tecnologia. Essa é uma das pesquisas que está se fazendo, pensando que no futuro pode ter um potencial.