Com mestrado e doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), Wagner Valenti colaborou na organização do último Congresso Mundial de Aquicultura, realizado no Brasil, e tem importantes publicações sobre camarões de água doce e sistemas sustentáveis de produção. Nesta entrevista, o atual professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) fala de suas experiências e expectativas para aquicultura brasileira.
1 - O senhor participou da organização do último Congresso Mundial de Aquicultura (WAS – World Aquaculture Society), que ocorreu em junho na cidade de Natal (RN). O resultado do evento correspondeu às expectativas?
Wagner Valenti - Eu acho que sim. Tivemos alguns problemas com a infraestrutura local, mas vieram mais de mil participantes do exterior, totalizando mais de 4 mil participantes no evento. O programa científico foi bastante inovador com a discussão de temas importantes e atuais. Então, o resultado correspondeu.
2 - O tema do evento era “Aquicultura para um mundo em transformação”. No sentido contrário, em sua opinião, o que é preciso transformar na aquicultura para que ela tenha maior visualização e importância na sociedade atual?
Wagner Valenti - A aquicultura tem grande visibilidade e importância em vários países asiáticos, No ocidente e no Brasil, basicamente, é necessário mais divulgação de todo o seu potencial para gerar riqueza com baixo impacto ambiental. Ter mais matérias na mídia, com informações sobre como a atividade pode ajudar e mostrando o papel que ela tem não só na produção de alimentos, mas também de outros produtos, como organismos ornamentais, iscas vivas e biomoléculas de interesse industrial.
3 - O senhor foi Vice-Presidente e Diretor da Sociedade Mundial de Aqüicultura (WAS), e conhece como a aquicultura está se desenvolvendo no mundo. Qual a sua avaliação sobre a posição do Brasil no cenário atual e futuro?
Wagner Valenti - Ao contrário do que se pensa, a aquicultura não está crescendo em todo o mundo. Ele cresce principalmente em alguns países em desenvolvimento. Isso, por si só, merece uma reflexão. O Brasil é um dos países em que a aquicultura está se desenvolvendo mais rápido. Em termos futuros, não só no Brasil, mas em todo o mundo o sucesso da aquicultura vai depender do desenvolvimento de sistemas sustentáveis, que usem poucos recursos para produção, com um menor grau de impacto ambiental e que traga desenvolvimento social.
O Brasil tem um potencial enorme para a aquicultura. Nós ainda não somos referência porque o volume de produção ainda é muito baixo. Atualmente, cerca de 90% da aquicultura do mundo é produzida na Ásia, principalmente na China, que detém um terço da produção mundial. Mas se considerarmos apenas o mundo ocidental, nós estamos em uma posição bastante significativa. Usamos sistemas e técnicas dentro dos padrões internacionais. Temos tecnologia tão boa quanto a que é usada no exterior.
Eu vejo que os grandes problemas da aquicultura no Brasil hoje são o uso de excessivo de monocultivos intensivamente arraçoados e de espécies exóticas. A meu ver, esses sistemas não são sustentáveis e sua lucratividade é bastante contestável, embora essa não seja a opinião corrente de outros especialistas. Além disso, praticamente toda a nossa aqüicultura está embasada em espécies exóticas, o que gera várias limitações. Esses são os principais gargalos que a gente enfrenta.
As análises econômicas que são feitas da atividade aquícola no Brasil também são falhas. Normalmente não se consideram todos os custos de produção, o que gera distorções. Mas esses problemas são enfrentados também em outros países do mundo ocidental. Então, acho que estamos dentro de um patamar bem elevado em comparação com o resto do mundo ocidental. Por isso que o Brasil foi escolhido para sediar o congresso mundial.
Além disso, estamos em uma fase de grande desenvolvimento de pessoal especializado, porque foram abertos muitos cursos de graduação e tecnólogos pelo Brasil que têm a aquicultura como base.
4 - A produção de camarões de água doce é dominada pela espécie asiática Macrobrachium rosenbergii. As espécies nativas do Brasil, como o M. amazonicum, apresentam potencial para incrementar a produção nacional? Quais os principais avanços e entraves para o desenvolvimento do cultivo destas espécies?
Wagner Valenti - O Macrobrachium rosenbergii está voltado para nichos de mercado locais, que são importantes, mas sofrem com a falta de estruturação da cadeia produtiva. No caso do camarão-da-amazônia, Macrobrachium amazonicum, existe uma rede de pesquisa que é a mais antiga em aquicultura do Brasil, envolvendo 14 instituições brasileiras, em estados das cinco regiões. Foi desenvolvido um pacote tecnológico bem consistente para a produção sustentável dessa espécie. Agora cabe ao governo adotar políticas públicas de difusão e implementação dessa tecnologia. Os camarões-da-amazônia são pouco conhecidos nas regiões sul e sudeste do Brasil, mas no norte e interior do nordeste existe um consumo significativo desta espécie. Além disso, existe o potencial de seu uso como espécie ornamental e isca viva.
5- Quais são as principais tecnologias que estão contribuindo nos últimos anos para o desenvolvimento do cultivo dos camarões de água doce?
Wagner Valenti - O principal aspecto responsável pelo enorme crescimento da produção de camarões de água doce no mundo, que hoje supera 450 mil toneladas anuais e movimenta mais de US $ 2 bilhões, é o fato dos sistemas serem mais sustentáveis e mais estáveis. Os camarões-de-água doce se adéquam muito bem à diversificação de produtos em pequenas propriedades. Podem ser criados em consórcio com arroz ou em policultivo com várias espécies de peixes em sistemas mais sustentáveis e mais lucrativos do que os monocultivos. A larvicultura em sistemas de recirculação está toda dominada, gerando produtividades elevadas e lucratividade real compatível com a atividade. O uso de substratos artificiais para a produção de alimento natural complementar e uso mais efetivo da tridimensionalidade dos viveiros também está bastante desenvolvido.
6- Com experiência na área de aquicultura desde os anos 80, e atualmente como pesquisador nível 1A do CNPq, qual sua percepção sobre os avanços da pesquisa brasileira nesta área?
Wagner Valenti - As perspectivas são muito favoráveis, temos um corpo de jovens doutores bastante significativo atuando em aquicultura. Quando a minha geração começou, eu já tenho 52, tínhamos poucos. Hoje nós temos uma massa crítica bem consistente e laboratórios bem equipados. Mas para gerar tecnologia de produção precisamos de redes de pesquisa. Porque para produzir uma espécie nova, nativa ou estrangeira, e gerar um novo pacote tecnológico nacional, precisa-se estudar muitas áreas diferentes de forma integrada e, para isso, é fundamental ter uma rede de pesquisas multidisciplinar e multinstitucional com um foco bem definido. O grande problema é não ter a cultura de trabalhar em rede, embora os órgãos de fomento tenham tentado incentivar.
7. Como o senhor avalia a importância da AQUABIO para o desenvolvimento nacional nas áreas de aquicultura e biologia aquática?
Wagner Valenti - A importância da AQUABIO é enorme! A AQUABIO é a sociedade representativa dos pesquisadores na área da aquicultura e deve ter uma ação bastante pró-ativa principalmente junto aos órgãos de fomento, aos meios de comunicação para divulgar a atividade como um todo e promover eventos, encontros, congressos, além da publicação de livros e artigos de qualidade.
8. Para finalizar, quais seriam seus conselhos para nossos estudantes e jovens pesquisadores que estão iniciando sua carreira científica?
Wagner Valenti - Eu acho que eles devem procurar ler o máximo que podem. Há informações disponíveis à vontade. E principalmente devem pensar, por que o grande problema é que nós pesquisadores nem sempre paramos para pensar. Pensar significa contestar o conhecimento vigente e procurar criar coisas novas adequadas às características brasileiras. Também é importante se integrar a grupos de pesquisas multidisciplinares.
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