Wilson Wasielesky, pós-doutor pela na Universidade da Carolina do Sul/Waddell Mariculture Center (2005), e doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (2000) é autor de mais de 70 trabalhos científicos em periódicos indexados. Atualmente é professor associado do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande e orienta alunos de pós-graduação nas área de Aquacultura e Oceanografia Biológica. Tem experiência na área de Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca, com ênfase em Carcinocultura. Nesta entrevista, o pesquisador aborda o desenvolvimento e a tecnologia empregados no cultivo de camarões em sistemas bioflocos.
Aquabio - Fale um pouco sobre o seu histórico com pesquisas na área de carcinicultura até o presente?
Wilson Wasielesky - No ano de 1990, iniciei a trabalhar na Estação Marinha de Aquacultura, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), RS, com maturação e larvicultura de camarões marinhos sob orientação do professor Marcos Marchiori. Paralelamente, iniciei a fazer pesquisas na área de toxicidade de nitrogenados para camarões marinhos com o professor Ostrensky. Neste período conclui a graduação em Oceanologia e mestrado em Oceanografia Biológica. A partir de 1994, já contratado como professor da FURG, juntamente com o prof. Cavali e colaboradores, segui a fazer pesquisas com camarões marinhos, principalmente com estruturas alternativas (gaiolas e cercados) junto à comunidade de pescadores artesanais do Estuário da Lagoa dos Patos. No ano de 2000, foram iniciadas pesquisas para analisar a viabilidade dos cultivos de camarões em sistemas convencionais no sul do Brasil. Os estudos acima citados culminaram com o desenvolvimento de técnicas para o aprimoramento da reprodução e cultivo de camarões marinhos, viabilizando a implantação de fazendas de carcinicultura no sul do Brasil.
Entre os anos de 2004 e 2005, realizei pós doutorado no Waddell Mariculture Center (EUA) onde foram iniciadas as pesquisas com sistema BFT. A partir de 2005, o grupo de pesquisadores da FURG também intensificou as pesquisas nessa área no sul do país. As pesquisas realizadas nos últimos sete anos com sistema BFT foram temas de quinze dissertações e teses do Programa de Pós-Graduação em Aquicultura da FURG, das quais várias publicações foram e estão sendo geradas.
Aquabio - O Senhor é reconhecido como um dos expoentes mundiais nas pesquisas relacionadas ao cultivo de camarões em sistema de bioflocos (BFT – Biofloc System Technology). Quais as características inovadoras desta tecnologia de cultivo em relação aos métodos tradicionais?
Wilson Wasielesky -O sistema de bioflocos é uma nova tecnologia de cultivo que pode ser utilizada para o cultivo de animais aquáticos que tem capacidade/habilidade de predar e ingerir pequenos organismos (microorganismos). Os camarões peneídeos, principalmente o L. vannamei e alguns peixes apresentam esta capacidade. Sendo assim, surgiu a possibilidade de cultivo em um sistema onde os animais se alimentam das rações, mas também ingerem os bioflocos, que são gerados através dos resíduos da própria atividade de cultivo. Além de servir com alimento, os bioflocos são importantes para a qualidade da água, pois utilizam o nitrogênio amoniacal disponível na água de cultivo, o qual juntamente com uma fonte de carbono injetada na água (melaço, dextrose, farelos etc), auxiliam no crescimento populacional bactérias heterotróficas. Estas bactérias, juntamente com ciliados, flagelados, microalgas, nematoides etc. formam agregados microbianos chamados bioflocos. Estes bioflocos também servem de substrato para fixação de bactérias nitrificantes, que auxiliam nos processos de nitrificação de dentro do próprio sistema de cultivo, transformando a amônia em nitrito e nitrito em nitrato (forma nitrogenada menos tóxica). Com isso, é possível se cultivar em densidades de estocagem relativamente elevadas e com mínima ou nenhuma renovação de água.
Aquabio - Apesar do histórico recente, observa-se um rápido avanço nas pesquisas com sistema BFT. Qual a sua avaliação sobre este fato?
Wilson Wasielesky -Vários fatores contribuem para o sistema BFT ser atrativo para os aquacultores. Em primeiro lugar, podemos citar o reaproveitamento dos nutrientes inseridos nos sistemas de criação (as rações). O excedente das rações, assim como o produto de excreção dos animais formam bioflocos que podem ser consumidos. Com isso, as conversões alimentares tendem a ser menores, mesmo em densidades de estocagem elevadas.
Um segundo fator importante é a diminuição do uso de água, por exemplo, em cultivos semi-intensivo de camarões normalmente são utilizadas dezenas de milhares de litros de água para se obter um quilograma de camarões, enquanto no sistema BFT é possível cultivar a mesma quantidade de camarões com 100-200 litros de água, a qual ainda pode ser reutilizada. Ambientalmente, esta característica do sistema BFT é extremamente relevante.
Somado a estes fatores, os diferentes microorganismos presentes no sistema BFT levam a um desenvolvimento populacional e equilíbrio entre as diferentes formas microbianas que normalmente é benéfico em termos sanitários para os cultivos, em função da exclusão competitiva com os patógenos presentes no cultivo.
Outro fator que leva ao interesse no desenvolvimento do sistema BFT é a possibilidade de se trabalhar em áreas relativamente menores, devido às altas densidades de estocagens utilizadas. Com isso, torna-se possível o cultivo de camarões em ambientes pequenos como estufas onde são colocados “raceways” onde se podem ter produções que variam de 40 a 100 ton/ha.
As vantagens citadas acima, além de muitas outras que são objetos de pesquisa no presente momento, tornam o sistema BFT muito atrativo em termos de pesquisa e em termos comerciais.
Aquabio - Quais as principais linhas de pesquisa na área de aquicultura e biologia aquática estão sendo aplicadas no cultivo de camarões no sistema BFT?
Wilson Wasielesky -Como estamos tratando de uma nova maneira de cultivar organismos aquáticos, muitas pesquisas estão sendo e ainda devem ser realizadas. É extremamente claro que pesquisas anteriormente realizadas para outros sistemas de cultivo devem ser repetidas no sistema BFT em função de se tratar de um sistema com características físicas, químicas e biológicas diferentes. Por exemplo, pesquisas básicas como determinação de densidade de estocagem ideal de cultivo, manejo alimentar, parâmetros físicos e químicos ideais, entre outros, devem ser determinados para esse sistema.
Por outro lado, pesquisas com microorganismos, probióticos, nutrição, manejo de cultivo incluindo sistemas de aeração, estruturas de cultivo, reuso de água, características nutricionais dos bioflocos, utilização de diferentes fontes de carbono são pesquisas fundamentais para avanços no desenvolvimento das atividades de pesquisa no sistema de bioflocos.
Aquabio - Como está o nível de tecnologia deste sistema no Brasil em relação a outras partes do mundo?
Wilson Wasielesky -No Brasil já temos um pacote básico de cultivo de camarões no sistema BFT adaptado às nossas condições, ou seja, já é possível cultivar com as pós-larvas, rações e insumos aqui produzidos. Pesquisas importantes estão sendo feitas principalmente em universidades no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Ceará. As produtividades no sistema BFT obtidas no Brasil estão compatíveis com aquelas obtidas nos países Asiáticos e na América Latina, entretanto, nos Estados Unidos, em função de um maior investimento em nutrição, genética e em sistemas com custo energético superior, as produtividades são maiores.
Aquabio - Em relação a situação atual da carcinicultura brasileira, como o sistema de cultivo BFT poderia contribuir?
Wilson Wasielesky -O sistema BFT é uma ferramenta que rapidamente pode ser aplicada nas fases iniciais de cultivo em diferentes fazendas. Entretanto, em área atacadas por doenças, o uso do sistema de bioflocos passa a ser uma ferramenta de maior importância. Por exemplo, na região de Laguna (SC) onde as fazendas foram atacadas pelo vírus da Mancha Branca (WSSV) desde 2004 e a produção foi basicamente zerada. Recentemente, foram realizadas despescas com alta sobrevivência utilizando o sistema de bioflocos associado a maiores cuidados com a biossegurança.
Aquabio - Em sua opinião, ainda existem entraves para o desenvolvimento do sistema BFT no Brasil?
Wilson Wasielesky - Para favorecer o uso do sistema BFT no Brasil pesquisas aplicadas ainda podem ser feitas, considerando-se as condições locais de cada região. Mas o desenvolvimento de rações e produção de pós-larvas especificas para o crescimento em sistemas intensivos e superintensivos devem ser desenvolvidos. Além disso, é fundamental a formação de recursos humanos de qualidade para trabalhar diretamente com esta nova técnica. Para isso, recursos para a pesquisa e formação de recursos humanos específicos para a área em questão devem ser liberados pelos órgãos financiadores.
Aquabio - Fale um pouco sobre o seu histórico com pesquisas na área de carcinicultura até o presente?
Wilson Wasielesky - No ano de 1990, iniciei a trabalhar na Estação Marinha de Aquacultura, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), RS, com maturação e larvicultura de camarões marinhos sob orientação do professor Marcos Marchiori. Paralelamente, iniciei a fazer pesquisas na área de toxicidade de nitrogenados para camarões marinhos com o professor Ostrensky. Neste período conclui a graduação em Oceanologia e mestrado em Oceanografia Biológica. A partir de 1994, já contratado como professor da FURG, juntamente com o prof. Cavali e colaboradores, segui a fazer pesquisas com camarões marinhos, principalmente com estruturas alternativas (gaiolas e cercados) junto à comunidade de pescadores artesanais do Estuário da Lagoa dos Patos. No ano de 2000, foram iniciadas pesquisas para analisar a viabilidade dos cultivos de camarões em sistemas convencionais no sul do Brasil. Os estudos acima citados culminaram com o desenvolvimento de técnicas para o aprimoramento da reprodução e cultivo de camarões marinhos, viabilizando a implantação de fazendas de carcinicultura no sul do Brasil.
Entre os anos de 2004 e 2005, realizei pós doutorado no Waddell Mariculture Center (EUA) onde foram iniciadas as pesquisas com sistema BFT. A partir de 2005, o grupo de pesquisadores da FURG também intensificou as pesquisas nessa área no sul do país. As pesquisas realizadas nos últimos sete anos com sistema BFT foram temas de quinze dissertações e teses do Programa de Pós-Graduação em Aquicultura da FURG, das quais várias publicações foram e estão sendo geradas.
Aquabio - O Senhor é reconhecido como um dos expoentes mundiais nas pesquisas relacionadas ao cultivo de camarões em sistema de bioflocos (BFT – Biofloc System Technology). Quais as características inovadoras desta tecnologia de cultivo em relação aos métodos tradicionais?
Wilson Wasielesky -O sistema de bioflocos é uma nova tecnologia de cultivo que pode ser utilizada para o cultivo de animais aquáticos que tem capacidade/habilidade de predar e ingerir pequenos organismos (microorganismos). Os camarões peneídeos, principalmente o L. vannamei e alguns peixes apresentam esta capacidade. Sendo assim, surgiu a possibilidade de cultivo em um sistema onde os animais se alimentam das rações, mas também ingerem os bioflocos, que são gerados através dos resíduos da própria atividade de cultivo. Além de servir com alimento, os bioflocos são importantes para a qualidade da água, pois utilizam o nitrogênio amoniacal disponível na água de cultivo, o qual juntamente com uma fonte de carbono injetada na água (melaço, dextrose, farelos etc), auxiliam no crescimento populacional bactérias heterotróficas. Estas bactérias, juntamente com ciliados, flagelados, microalgas, nematoides etc. formam agregados microbianos chamados bioflocos. Estes bioflocos também servem de substrato para fixação de bactérias nitrificantes, que auxiliam nos processos de nitrificação de dentro do próprio sistema de cultivo, transformando a amônia em nitrito e nitrito em nitrato (forma nitrogenada menos tóxica). Com isso, é possível se cultivar em densidades de estocagem relativamente elevadas e com mínima ou nenhuma renovação de água.
Aquabio - Apesar do histórico recente, observa-se um rápido avanço nas pesquisas com sistema BFT. Qual a sua avaliação sobre este fato?
Wilson Wasielesky -Vários fatores contribuem para o sistema BFT ser atrativo para os aquacultores. Em primeiro lugar, podemos citar o reaproveitamento dos nutrientes inseridos nos sistemas de criação (as rações). O excedente das rações, assim como o produto de excreção dos animais formam bioflocos que podem ser consumidos. Com isso, as conversões alimentares tendem a ser menores, mesmo em densidades de estocagem elevadas.
Um segundo fator importante é a diminuição do uso de água, por exemplo, em cultivos semi-intensivo de camarões normalmente são utilizadas dezenas de milhares de litros de água para se obter um quilograma de camarões, enquanto no sistema BFT é possível cultivar a mesma quantidade de camarões com 100-200 litros de água, a qual ainda pode ser reutilizada. Ambientalmente, esta característica do sistema BFT é extremamente relevante.
Somado a estes fatores, os diferentes microorganismos presentes no sistema BFT levam a um desenvolvimento populacional e equilíbrio entre as diferentes formas microbianas que normalmente é benéfico em termos sanitários para os cultivos, em função da exclusão competitiva com os patógenos presentes no cultivo.
Outro fator que leva ao interesse no desenvolvimento do sistema BFT é a possibilidade de se trabalhar em áreas relativamente menores, devido às altas densidades de estocagens utilizadas. Com isso, torna-se possível o cultivo de camarões em ambientes pequenos como estufas onde são colocados “raceways” onde se podem ter produções que variam de 40 a 100 ton/ha.
As vantagens citadas acima, além de muitas outras que são objetos de pesquisa no presente momento, tornam o sistema BFT muito atrativo em termos de pesquisa e em termos comerciais.
Aquabio - Quais as principais linhas de pesquisa na área de aquicultura e biologia aquática estão sendo aplicadas no cultivo de camarões no sistema BFT?
Wilson Wasielesky -Como estamos tratando de uma nova maneira de cultivar organismos aquáticos, muitas pesquisas estão sendo e ainda devem ser realizadas. É extremamente claro que pesquisas anteriormente realizadas para outros sistemas de cultivo devem ser repetidas no sistema BFT em função de se tratar de um sistema com características físicas, químicas e biológicas diferentes. Por exemplo, pesquisas básicas como determinação de densidade de estocagem ideal de cultivo, manejo alimentar, parâmetros físicos e químicos ideais, entre outros, devem ser determinados para esse sistema.
Por outro lado, pesquisas com microorganismos, probióticos, nutrição, manejo de cultivo incluindo sistemas de aeração, estruturas de cultivo, reuso de água, características nutricionais dos bioflocos, utilização de diferentes fontes de carbono são pesquisas fundamentais para avanços no desenvolvimento das atividades de pesquisa no sistema de bioflocos.
Aquabio - Como está o nível de tecnologia deste sistema no Brasil em relação a outras partes do mundo?
Wilson Wasielesky -No Brasil já temos um pacote básico de cultivo de camarões no sistema BFT adaptado às nossas condições, ou seja, já é possível cultivar com as pós-larvas, rações e insumos aqui produzidos. Pesquisas importantes estão sendo feitas principalmente em universidades no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Ceará. As produtividades no sistema BFT obtidas no Brasil estão compatíveis com aquelas obtidas nos países Asiáticos e na América Latina, entretanto, nos Estados Unidos, em função de um maior investimento em nutrição, genética e em sistemas com custo energético superior, as produtividades são maiores.
Aquabio - Em relação a situação atual da carcinicultura brasileira, como o sistema de cultivo BFT poderia contribuir?
Wilson Wasielesky -O sistema BFT é uma ferramenta que rapidamente pode ser aplicada nas fases iniciais de cultivo em diferentes fazendas. Entretanto, em área atacadas por doenças, o uso do sistema de bioflocos passa a ser uma ferramenta de maior importância. Por exemplo, na região de Laguna (SC) onde as fazendas foram atacadas pelo vírus da Mancha Branca (WSSV) desde 2004 e a produção foi basicamente zerada. Recentemente, foram realizadas despescas com alta sobrevivência utilizando o sistema de bioflocos associado a maiores cuidados com a biossegurança.
Aquabio - Em sua opinião, ainda existem entraves para o desenvolvimento do sistema BFT no Brasil?
Wilson Wasielesky - Para favorecer o uso do sistema BFT no Brasil pesquisas aplicadas ainda podem ser feitas, considerando-se as condições locais de cada região. Mas o desenvolvimento de rações e produção de pós-larvas especificas para o crescimento em sistemas intensivos e superintensivos devem ser desenvolvidos. Além disso, é fundamental a formação de recursos humanos de qualidade para trabalhar diretamente com esta nova técnica. Para isso, recursos para a pesquisa e formação de recursos humanos específicos para a área em questão devem ser liberados pelos órgãos financiadores.